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Brasília,


O
RLANDO SPENCER BOYER


Quem foi Orlando Boyer

Nascido em Bedford, Iowa, EUA, em 5 de março de 1893, Orlando Spencer Boyer, futuro missionário ao Brasil, casou-se em 15 de março de 1914 com a senhorita Ethel Beebe, que durante 53 anos foi sua incansável companheira na obra do Senhor, e com quem teve um filho e uma filha, hoje residentes nos EUA. Apesar de ter sido duramente provada durante dez anos, de 1927 a 1937, com um câncer que muito a debilitou, irmã Ethel não desanimou da missão que lhe fora confiada por Deus ao lado do esposo. Sua coragem, fé, perseverança e confiança no poder de Deus foram finalmente compensadas com a cura milagrosa enquanto orava, durante um culto, na igreja em Camocim, CE. Seu testemunho foi publicado no Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de agosto de 1938, página: 5.

 

Sua Conversão 

Boyer contava 12 anos de idade quando o sofrimento e o falecimento de sua avó o levaram a preocupar-se com o seu próprio destino após a norte. Um pensamento o atormentava: “Onde vou passar a eternidade?” Apesar de seus pais serem crentes, de ele próprio ir à igreja e participar dos cultos domésticos, não tinha certeza da salvação, até que, num domingo, ele aceitou Jesus como seu Salvador. Aos 16 anos voltou a ser atormentado pelas dúvidas, mas, na Epístola aos Hebreus, encontrou a resposta para suas angustiantes perguntas concernentes à esperança de salvação: “A qual temos por âncora da alma (o grifo é meu), segura e firme, e que penetra além do véu” (Hb 6.19). Estas experiências levaram-no a escrever, 40 anos depois, o livro Âncora da Alma, com o objetivo de dirimir dúvidas e inspirar fé e confiança na alma dos leitores.

A Vinda para o Brasil

Em 1927, o casal Boyer, enviado pelo Conselho Missionário da Igreja de Cristo, da qual eram membros, chegou ao Brasil com a missão de evangelizar e implantar igrejas onde ainda não houvesse trabalho evangélico. Seu primeiro campo de trabalho foi em Pernambuco, e ali o casal permaneceu um ano aprendendo a língua portuguesa, indo depois para Mata Grande, Alagoas. Ao longo de quatro anos Boyer desbravou o sertão alagoano, implantando pontos de evangelização em vários lugares.
Em 1932, Boyer e sua esposa foram para Sobral, no Ceará. Naquela época não havia trabalho evangélico naquela cidade, o catolicismo predominava, e o padre local, tentando obstar a penetração do Evangelho nos seus domínios, incitou o povo contra os missionários. Boyer relatou anos depois que a recepção naquele lugar foi tremendamente inóspita; cerca de 3.000 pessoas reuniram-se em frente à pensão, onde os missionários estavam hospedados, ameaçando-os de linchamento se não saíssem da cidade. Os irmãos foram salvos da ira do sacerdote romano e da população graças a ação decidida e enérgica do comandante do destacamento de polícia naquela cidade,, que dispersou os desordeiros. Dali foram para Ipu, onde foram apedrejados por um grupo de moradores, sob a liderança do padre local e das freiras (sempre eles). O episódio é narrado assim no livro História das Assembléias de Deus no Brasil, CPAD, 2ª edição, 1982, página 139: “À noite, apagaram as luzes da cidade e a multidão, enfurecida, reuniu-se na praça principal, pronta para investir contra o portador das boas novas pentecostais. Entretanto, o mesmo oficial que o protegeu em Sobral, avisado com antecedência, dirigiu-se para Ipu e, com a mesma bravura, fez recuar padre, freiras, e desordeiros, nada acontecendo ao enviado de Deus”. Assim foi em Crateús, Camocim e noutros lugares. Era a mão de Deus livrando e guardando seus servos da fúria de Satanás (Sl 121; Mt 28.19,20). Seu esforço pioneiro no Ceará resultou na evangelização e abertura de trabalhos em 14 localidades ao longo da vida férrea.

O Encontro com Lampião

A vida de Boyer, tal como a do apóstolo Paulo, correu perigo inúmeras vezes, tendo, até, de pagar um resgate de 236$000 (duzentos e trinta e seis mil réis) para que Lampião, o rei do cangaço, que então implantava o terror nas caatingas do Nordeste, libertasse Virgílio Schmidt e sua esposa, missionários que trabalhavam com ele. Lampião achou que a quantia oferecida por Boyer era pequena, exigia cinco contos de réis, mas Boyer falou do amor de Cristo ao cangaceiro, que não lhe fez mal algum, libertou os missionários e os deixou seguir em paz, restituindo-lhes os 236$000 e mais 109$000 (cento e nove mil réis) do próprio bolso para os ajudar nas despesas (MP 1090, 2ª quinzena de abril 1978, pág. 5). Teria a semente do evangelho germinado em algum daqueles empedernidos corações? Cremos que sim, a Palavra de Deus não é pregada em vão (Is 55.11). Com certeza, o Senhor honrou o trabalho e o sacrifício do seu servo, que com desapego à própria vida enfrentou com denodo os ataques de Satanás, de homens e feras nos sertões do Nordeste.

A Volta aos Estados Unidos e o Batismo com o Espírito Santo

Em maio de 1935, comovidos com o testemunho dos missionários Virgil Smith e Bernhard Johnson sobre a experiência do batismo com o Espírito santo, Boyer e sua esposa voltaram aos Estados Unidos, onde durante uma reunião de oração, em Oklahoma, a irmã Ethel foi batizada com o Espírito Santo. Pouco depois , na igreja em Peoria, Tulsa, Boyer foi também selado com o Espírito da Promessa. A partir de então, filiaram-se à Assembléia de Deus em Oklahoma, cujo Departamento de Missões os enviou de volta ao Brasil, em dezembro daquele mesmo ano.

Retomando o trabalho no Brasil

Em 1938, encontramo-lo pastoreando o trabalho da Assembléia de Deus em Camocim, conforme relato do pastor José Teixeira Rego, no MP da 2ª quinzena de julho de 1938, página 7. Ainda no MP da 1ª quinzena de agosto de 1938, página 7, Boyer aparece em uma foto com um grupo de irmãos na AD em Ipiaba, Ceará. Nesse Estado ele trabalhou 10 anos, de 1932 a 1942, indo então para Santa Catarina, onde permaneceu 3 anos. Ali, aconselhado por J.P. Kolenda, iniciou sua careira como escritor, publicando seu primeiro livro Esforça-te para Ganhar Almas.

Boyer e a Literatura

Orlando Boyer era versátil, possuía grande cabedal cultural. Além de eloqüente pregador, seus sermões enlevavam os ouvintes e a glória de Deus descia sobre a igreja onde pregava, era também excelente professor, sendo, por isso, muito solicitado para pregar e ministrar estudos bíblicos nas igrejas. Seus dotes de escritor foram também colocados a serviço de Deus, e ele deixou-nos um valioso acervo de obras teológicas de sua autoria, 17 livros, incluindo esta coletânea de esboços de sermões, e 115 traduzidas do inglês, em uma época em que os recursos técnicos e humanos, nessa área, eram escassos no Brasil. De suas obras destacam-se Âncora da Alma, Pequena Enciclopédia Bíblica, Espada Cortante (dois volumes), Esforça-te para Ganhar Almas, Daniel Fala Hoje, Visão de Patmos e Heróis da Fé.

Boyer e a CPAD

Em 1945, Boyer mudou-se para o Rio de Janeiro, atendendo o convite para trabalhar na CPAD, na época, situada na Rua São Luiz Gonzaga 1951, como comentarista das lições bíblicas da Escola Dominical. Ali iniciou sua vasta contribuição à literatura das Assembléias de Deus no Brasil, comentando as lições bíblicas do segundo semestre de 1946, com o tema Personagens da Bíblia. Além disso, escrevia e traduzia livros e também artigos para o Mensageiro da Paz. Aliás, o MP da 1ª quinzena de setembro de 1938, página 4, publica um artigo traduzido por ele, intitulado “A Destruição da Cidade de São Pedro”.

Lágrimas e Luto

Vivendo modestamente e sacrificando o próprio conforto, Boyer investia do próprio bolso na publicação de suas obras, visando das aos obreiros e aos crentes em geral uma boa formação bíblica e teológica. Todavia, sua esposa adoeceu e o casal voltou aos Estados Unidos, onde no dia 14 de outubro de 1967 ela partiu para a eternidade, deixando no coração do denodado missionário um grande pesar. Entretanto, Boyer não quis ficar em seu país e retornou ao Brasil para continuar sua missão de ensinar, traduzir e escrever livros.

O Último Adeus ao Brasil

No dia 16 de fevereiro de 1978, Boyer deixou definitivamente o Brasil. Ao sair de Pindamonhangaba (nos últimos anos vevera e lecionara no IBAD – Instituto Bíblico das Assembléias de Deus) a caminho do Rio de Janeiro, onde embarcaria para os Estados Unidos, o valente pioneiro, com a voz embargada e lágrimas nos olhos, despediu-se dizendo: “Adeus, Pinda”. Dois meses depois, no dia 21 de abril, na casa de repouso Maranata, Springfield, Missouri, alquebrado pelo peso dos seus 85 anos, dos quais 51 foram dedicados ao Brasil, Boyer descansou das suas obras. Como Paulo, ele poderia dizer: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia...” (2 Tm 4.7,8).
Sem dúvida alguma, o nome de Orlando Boyer poderia ser acrescentado à galeria dos heróis citados em seu livro Heróis da Fé!

Orlando Spencer Boyer: Uma vida consagrada à literatura

Naquele tempo, havia limites para se escrever livros; pois os recursos materiais eram mais escassos, e os escritores, uma raridade. Todavia, Orlando Spencer Boyer aceitou o desafio. Ele demonstrou ser a recomendação de Salomão não somente viável, mas imprescindível num país carente de livros que falem de Deus.
Aquele americano simples e despojado, a quem todos carinhosamente chamavam de irmão Boyer, pôs-se a escrever uma série de comentários bíblicos, devocionais, obras exegéticas e de referência. Até então, ninguém havia produzido tanto quanto o missionário Boyer. E, assim, com uma farta produção literária, conseguiu ele a façanha de transceder as fronteiras de sua denominação para tornar-se um dos mais respeitados clássicos da literatura evangélica brasileira.
Quem já não leu a Espada Cortante? Ou não consulta de vez em quando a Pequena Enciclopédia Bíblica? Acredito que toda a família; porque Orlando Boyer tinha o dom de escrever às mais diversas faixas etárias.
Recentemente, fui procurado pelo missionário Mark Lemos, diretor do Instituto Bíblico das Assembléias de Deus em Pindamonhangaba, que me passou às mãos um manuscrito inédito de Orlando Boyer.  Repassando aquelas folhas soltas e já amarelecidas, mas ainda bem legíveis num estilo cursivo e firme, encontrei uma série de esboços de sermões e estudos bíblicos. Para ser mais exato: lá estavam 150 esquemas de pregação.
Diante do achado, na tive dúvidas. Ali, bem à minha frente, estava uma obra indispensável para o povo de Deus; uma obra que nasceria clássica. Resolvemos, pois, confiar o material ao redator Joel Dutra do Nascimento que, com a sua paciência bem característica, foi restaurando cada esboço e refazendo um ou outro ponto ainda obscuro. No final de alguns meses de extenuante trabalho, vim a constatar termos em mãos um dos mais valiosos esboçários evangélicos de nosso país.
Aqui estão os esboços de Orlando Boyer. Costuma-se dizer que um bom escritor, mesmo depois de morto, continua a falar. Nesse caso, Orlando Boyer estará pregando e ensinando através daqueles que utilizarem seus esboços.
Nossa oração é que esta obra venha enriquecer os púlpitos de nosso país, num momento em que se carece tanto de mensagens genuinamente bíblicas. Em Cristo,

Ronaldo Rodrigues de Souza

Diretor Executivo

Informações Extraídas:

    • Livro: 150 Estudos e Mensagens de Orlando Boyer, Edições CPAD
    • Fotos: História das Assembléias de Deus no Brasil, CPAD, 2ª edição, 1982

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