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III - O PERFIL DE UM POLÍTICO EVANGÉLICO
O notável crescimento evangélico na América Latina tem provocado um fascínio pelo poder político. Prova disso é o número excessivo de candidatos evangélicos nas eleições - alguns sem o devido preparo ou vocação política. Qual seria o perfil de um político evangélico? Seguem algumas sugestões:
1. Prioridade absoluta do Reino de Deus na busca dos seus ideais de justiça, paz, alegria e liberdade, tanto na vida pessoal como na sociedade.
2. Firme identidade cristã-evangélica. Em outras palavras, que seja um bom crente, firme na fé, com bom testemunho na sociedade, e devidamente integrado e experimentado na sua Igreja.
3. Integridade pessoal. Isso é fundamental para não ser corrompido no processo político.
4. Prudência e simplicidade, seguindo literalmente a recomendação do Senhor Jesus: "Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas". Não deve ser ingênuo com relação à natureza do mal na política. Tem que ser astuto para não cair nas astutas ciladas do diabo, e, ao mesmo tempo, integro/inteiro em seus propósitos.
5. Ter uma filosofia de serviço como nos ensinou Jesus. Jamais deve buscar o poder para se servir, mas para servir ao povo que representa, e não apenas ao povo evangélico.
6. Compromisso social com os mais pobres e desfavorecidos e com as causas justas da sociedade. O político evangélico não pode estar a serviço das elites e dos poderosos.
7. Compromisso partidário a fim de que não seja jogado convenientemente de um partido para outro. Deve, no entanto, relativizar o seu partido político para que não caia no paroquialismo ideológico e político, já que absoluto é só Deus e o seu Reino.
IV. A PRÁTICA DA AÇÃO POLÍTICA
1. A ação política é conflitiva - O político vive no dia-a-dia as pressões da sociedade e conflitos de múltiplos interesses políticos. Tem de tomar decisões rápidas sobre os mais diversos problemas. Vive em meio a uma constante guerra espiritual entre o bem e o mal, mas o maniqueísmo mental não funciona. Às vezes se é obrigado a optar pelo mal menor na elaboração de uma lei, até mesmo, na tomada de uma decisão. Vale a pena se desenvolver praticamente a doutrina paulina dos "principados e potestades" contra os quais temos de lutar. Nesse embate a Armadura de Deus é imprescindível (Ef 6.10-19).
2. A prática política exige participação. O isolamento político é um suicídio. Não se deixar queimar é fundamental para não se perder a credibilidade e os espaços. A astúcia das serpentes é importante para tanto. Isso é prático também para as Igrejas que não devem se enclausurar num monasticismo intra-mundo, mas devem participar na elaboração das políticas públicas, nas campanhas públicas em benefício do bem comum. No Distrito Federal há um projeto de governo que considero revolucionário: o orçamento participativo que requer a participação da sociedade na sua elaboração e na sua execução.
4. Cobeligerância. O político evangélico deve ter uma firme opção partidária. Porém a fidelidade partidária não deve conduzi-lo ao paroquialismo nem a fazer inimigos. Às vezes, para o bem comum, pode-se aliar ao adversário quando há acordo na ação política. Também é verdade, como dizia o ex-presidente Tancredo Neves, que "os adversários de hoje podem ser aliados de amanhã". Sobre cobeligerância, Francis Shaeffer, em seu "Manifesto Cristão", escreveu uma página linda. É importante a verdade paulina de que "a nossa luta não é contra carne e sangue".
CONCLUSÃO: Uma filosofia política
Na busca de uma filosofia cristã para a prática da ação política, as palavras de Jesus Cristo são decisivas: "Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas" (Mt 10.16). Encarnar este ensinamento é fundamental, especialmente a um político, porque a política é um processo dinâmico em que diariamente se tem de tomar decisões rápidas diante das mais imprevisíveis situações. O contexto bíblico destas palavras de Jesus é o envio de seus discípulos para uma missão louca: "Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos". Cultivar, pois a prudência/astúcia das serpentes e a simplicidade das pombas são essenciais. Prudência ( phronimos = cautela, bom senso, sagacidade, astúcia). Simplicidade ( akeraios = sinceridade, pureza, sem mistura, sem malícia, integridade). Administrar a prudência e simplicidade não é fácil, mas desafiador.
Prudentes como as serpentes para discernir o bem e o mal; e simples como as pombas para ser transparentes e sinceros. Prudentes para evitar conflitos desnecessários; e simples para não fugir dos conflitos inevitáveis. Prudentes para não se prender a atitudes mentais fechadas; e simples para se abrir inteiramente a causas justas. Prudentes para não se corromper com o mal; e simples para se comprometer com o bem. Prudentes para não se deixar queimar; e simples para não se desanimar. Prudentes/astutos como as serpentes para não exagerar; e simples para se apaixonar. Prudentes nas negociações; e simples para falar sem duplicidade. Prudentes sem serem maldosos; e simples sem serem ingênuos. Prudentes para ceder no que não é fundamental; e simples para não ceder no essencial. Prudentes para não se deixar dominar; e simples para não dominar os outros. Prudentes para não ficar do lado dos poderosos; e simples para abraçar a causa do pobre e do oprimido. Prudentes para reconhecer que nem sempre a voz do povo é a voz de Deus; e simples para abraçar como criança os ideais do Reino. Em suma, prudentes como as serpentes para errar menos; e simples como as pombas para corrigir os erros.
Meu desejo, como político evangélico, é que esta reflexão, feita com a ajuda de companheiros que me apoiam em Brasília, enriquecida com a experiência de outros colegas, contribua para o debate e uma maior conscientização sobre a participação política dos evangélicos.
ELIEL MENDES
Brasília-DF., 11/11/97-Goiânia-GO
Brasília-DF., 28 e 29/03/98-Picos-PI
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