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I - UMA REALIDADE DESAFIADORA

1. A Realidade Social e Econômica é Piramidal - Os 10% mais ricos, no topo da pirâmide, controlam 50 % da riqueza nacional, e os 50% mais pobres, na base da pirâmide, ficam com apenas 10%. O Brasil é o país com uma das piores distribuições de renda do mundo, e provavelmente, com mais alta taxa de iniquidade social de todo o planeta, embora seja, potencialmente, um dos países mais ricos. Eis, sucintamente, os nossos males: acumulação de riquezas nas mãos de poucos, mortalidade infantil, assassinatos de menores, baixa expectativa de vida, velhice desamparada, milhões sem moradia, educação e saúde sucateadas, salários aviltados, miséria, fome, desemprego, injustiça, impunidade, violência generalizada, crimes ecológicos, meios de comunicação massificante e cultos alienantes. E, com o triunfo do neoliberalismo, com o deus "mercado" regulamentando tudo, a tendência é aumentar o número dos excluídos do sistema. As Igrejas reproduzem essa realidade. Há Igrejas ricas e há Igrejas pobres, e quase nenhuma solidariedade entre elas.

  2. A Realidade Política é um Espelho - Reflete a realidade social e econômica. Historicamente o Brasil tem sido governado por uma elite egoísta e irresponsável. Saímos, porém, de uma ditadura militar, enfrentamos o impeachment de um Presidente da República, e vivemos numa democracia. A participação política dos evangélicos se faz sentir no Congresso Nacional onde temos quase 40 deputados e senadores, dezenas de deputados nas Assembléias Estaduais, e 5 na Câmara Legislativa do Distrito Federal, além de inúmeros prefeitos e vereadores nos municípios. Há uma tendência claramente verificada entre os políticos evangélicos: eles preferem apoiar o governo. Mas a presença evangélica se faz sentir também nos partidos de oposição.

3. A Realidade Religiosa é Ampla - Vive-se no Brasil plena liberdade de culto, mas o fenômeno religioso que é motivado de estudos de cientistas sociais, é, sem dúvida, o crescimento evangélico. Embora a cultura religiosa do Brasil seja católica, a Igreja Católica, por ser uma Igreja clerical, perdeu significativamente a capacidade de dialogar com o povo. Quem dialoga são as Igrejas Evangélicas, especialmente as pentecostais. No guarda-chuva "Evangélico" abriga-se uma grande diversidade de Igrejas. Politicamente os evangélicos, por razões de formação histórica e ideológica, são conservadores. Mas eles estão presentes em todas as áreas da sociedade, inclusive, em todos os partidos políticos.

II. MISSÃO POLÍTICA: DESAFIOS ÀS IGREJAS

As Igrejas locais e as denominações são o terreno onde nascem a vocação política. Se isso é verdade nos Estados Unidos, especialmente nas igrejas dos negros, na África, e noutros países do mundo, também o é no Brasil e nos demais países latino-americanos. Reconhecer, como Calvino, que a vocação política é tão digna quanto as outras, inclusive as clericais, é fundamental. Há ainda muitos preconceitos em muitas igrejas para encará-la como tal. A Igreja, através de sua história, tende a reproduzir a sociedade. No Brasil, e, creio, noutros países latino-americanos, na tentativa de assédio ao poder político, sem o necessário preparo, sofremos grandes golpes. Políticos evangélicos se envolveram na corrupção. Eis sete propostas/desafios para que as Igrejas sejam terrenos férteis na produção de bons políticos:

1. O desenvolvimento de uma espiritualidade integral que alcance todas as áreas da vida . A fé cristã afeta todas as áreas da vida. Ela não departamentaliza a vida entre o que é sagrado e o que é profano. Tudo sobe ao nível do sagrado. Não se preocupa apenas com o céu, mas principalmente com a terra. A sua oração central é o PAI NOSSO, que une as coisas de Deus (o seu santo nome, o seu reino, a sua vontade, a sua glória) com as coisas do homem (o pão, o perdão das dívidas, os relacionamentos, a fraqueza diante do mal). Além do mais a fé cristã é essencialmente ética, tão ética que para ela os meios determinam o fim. Assim nos demonstrou o Senhor Jesus que, buscando o fim da redenção do ser humano, escolheu o meio do amor que se põe a serviço, recusando as tentações demoníacas do caminho do poder que oprime, da violência e da manipulação das massas através de milagres (Mt 4.1-11; Lc 4.1-13). Portanto, o roubo, a mentira e a esperteza não se justificam sob o pretexto de se promover a Causa Santa. Deus é santo e exige santidade do seu povo. Baal/Satanás é que é o deus da permissividade.

2. Buscar o equilíbrio tri-dimensional: verticalidade, horizontalidade e profundidade. Paul Tillich, teólogo católico dos mais conceituados, criticando os movimentos religiosos de massa nos Estados Unidos, disse que a dimensão de profundidade é a dimensão perdida da religião. E eu diria que a vida da Igreja é trinitária porque é a ação da Trindade Santa dentro dela: a verticalidade do Pai, a horizontalidade do Filho e a profundidade do Espírito Santo. Se só a verticalidade é incentivada, cairíamos num pientismo alienante (ascetismo intra-mundo). Só a horizontalidade, cairíamos na tentação do Evangelho Social (ativismo humano). E se só profundidade, cairíamos num intimismo estéril (misticismo). Daí a necessidade do equilíbrio tri-dimensional para que a saúde de Deus invada nossa vida em todas as áreas de nossa atuação, especialmente na política. Não basta apenas a quantidade. É preciso qualidade.

3. A construção de uma prática política baseada no serviço desinteressado . Mateus 20.20-28 e Mc 10.35-45 são uma página do Evangelho que não pode ser esquecida pelas Igrejas. Daí a repetição, não apenas nos dois textos acima, mas noutros textos nos Evangelhos. Jesus Cristo coloca para os seus seguidores uma proposta revolucionária e humana: o poder para servir, e não para se servir. O "mas entre vós não é assim" de Jesus continua desafiador para a vida interna das Igrejas, para a política das denominações. Encarnar este ensinamento é fundamental na formação do caráter cristão, na formação de comunidades cristãs saudáveis e no surgimento de vocações para o serviço da sociedade. A Igreja é uma maquete do Reino de Deus para o mundo. Portanto, nada de autoritarismo, mas carismatismo democrático como nos receita o Novo Testamento. A democratização das Igrejas é um imperativo do Evangelho para que o governo de Cristo seja exercido em todos, através de todos, espera o bem de todos (Efésios 4). Na vida pública, o político não passa de um servo do povo.

4. O desenvolvimento de uma práxis bíblico-teológica para a missão política . É imperativo que para cada ação concreta da Igreja e do cristão, haja uma base bíblico-teológica consistente, porque o nosso desafio é agir como Deus age. Na prática da ação política isso é fundamental. Paul Freston, em palestra numa reunião do Movimento Evangélico Progressista do Brasil, apresentou três elementos importantes: 1) "Uma teologia do envolvimento desinteressado (não apenas uma teologia do envolvimento político), isto é, em termos teológico/protestante, baseada na doutrina da criação e do mandato natural; 2) a teologia da prioridade da justiça social; e, 3) a teologia do Reino de Deus". Eu acrescento mais um elemento: Uma teologia urbana que recupere a importância da grande cidade, mas, principalmente, o significado espiritual dos seus sistemas político, econômico e religioso.

5. A recuperação da voz profética . "Sem profecia o povo se corrompe". Esta verdade bíblica é válida para a Igreja, para a sociedade e para o mundo. A confrontação da Palavra de Deus com o pecado humano gera saúde para o tecido social. Martin Luther King escreveu, em memorável carta, que "se a Igreja de hoje não recuperar o espírito sacrificial da Igreja Primitiva, renunciará a lealdade de milhões que a deixarão de lado como um irrelevante clube social sem significado para o nosso século". A denúncia profética dos pecados sociais, e não apenas dos indivíduos, é necessária numa realidade de iniquidade social que clama aos céus.

6. A promoção do debate político. A política deve ser assunto do púlpito, da formação dos pastores e líderes, de debates em organizações das Igrejas. Movimentos de ação política devem ser incentivados como o Movimento Evangélico Progressista, no Brasil, para discutirem a conjuntura, e traçarem estratégias de ação. No Brasil, antes do golpe militar de 64, houve uma fermentação do debate político em todos os segmentos da vida nacional, e alcançou as Igrejas.

7. O incentivo e o apoio à vocação política. Aqueles que têm um mandato popular, assim como os que pretendem ter, devem ser alvos das orações das Igrejas, e de um cuidado pastoral especial. O embate político é duro, o bem e o mal se chocam e são poucos os que saem ilesos e íntegros desta batalha.

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A participação dos evangélicos na política